quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Iluminar o futuro

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Ainda anteontem na mercearia - eu gosto de ouvir as pessoas na mercearia, dão-nos uma perspectiva ainda mais real da sociedade do que os comentários nos jornais online, com a vantagem de não ter de levar com tanto palavrão - se falava das charadas que antigamente se aprendiam, como uma sobre algo nascer verde, pôr-se de luto e, depois de muitos sofrimento, dar luz (sendo a azeitona a resposta). Eu, que sempre gostei destes jogos de palavras, até porque me lembro de os ouvir do meu avô quando era pequena, ia ouvindo, sorrindo e dizendo que não sabia as respostas - só acertei a da azeitona, mas porque me lembrava. E também ouvi que parecia impossível, uma menina estudada não conseguir adivinhar estas coisas - como se as charadas fossem absolutamente lógicas e portanto reveladoras de inteligência ou educação, e não apenas um jogo de palavras, engraçado, está certo, mas pouco mais do que isso. Acerca da charada da azeitona comentei que hoje em dia seria difícil encontrar uma criança que percebesse aquilo, pois a maioria não saberá que o azeite serviu, um dia, como combustível e não como tempero. Mas que sabem outras coisas, muito diferentes. E as minhas crianças demonstraram-no ontem. Como revisão, pus no quadro imagens de um crocodilo, um tigre, um gato, um macaco e uma cobra e perguntei qual dos animais não pertencia ali. A primeira de dedo no ar respondeu "É o gato, que é um animal doméstico e os outros são selvagens" e eu disse que sim, a resposta estava correta - mas havia outras, quem me dizia? E não tardou um menino dizer-me "É a cobra, porque é a única que não tem patas." Correto também. Esta elasticidade mental era o que as charadas, com as suas respostas enigmáticas mas imutáveis, não conseguiam alcançar. Os meninos que me responderam têm entre 5, 6 e 7 anos, metade ainda não sabe ler nem escrever. Acham que sabem pouco? Eu não.
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