terça-feira, 18 de outubro de 2016

Falta de noção


"Nós nem vamos buscá-lo tarde, 6h, 6h30 e vem para casa", disse-me uma conhecida sobre o seu filho de 6 meses.

Não disse "tem de ser", "não conseguimos de outra maneira" ou "não há ninguém que possa ir buscá-lo mais cedo", motivos profissionais ou familiares que, sei bem,  pesam muito. O que me espanta,  o que me choca, o que me irrita profundamente é a falta de noção de que estar num berçário das 8h30 às 18h30 é um horror. É achar que 18h é cedo. É aceitar um horário de 10h para um ser que nem falar sabe.

9 comentários:

Rita Maria disse...

É tristíssimo, de acordo. Não sei porque não se fala mais nisto, as oito horas diárias são incompatíveis com a vida familiar ponto (e nem falo de quem as estravaza regularmente porque é o esperado e/ou exigido).Está na altura de deixarem de ser um dado adquirido e de se começar a tratar as 40 horas como aquilo que são, o máximo permitido por lei e não o número de horas mínimo nem um standard gravado em pedra desde sempre e para sempre.

(e quem diz familiar diz afectiva, cultural, social...mas no caso das crianças e especialmente dos bebés dói mais)

Guilhim disse...

Aperta um bocadinho o coração. Na creche da minha pequena nem que quiséssemos não podia ser. Regras da casa que nos faziam todo o sentido e organizámo-nos de forma a ir buscá-la por volta das 16h30. Deu um trabalhão desgraçado, implicou umas trocas entre nós, algumas no meio de caminho dos nossos trabalhos, mas não fazia sentido de outra forma!

Goldfish disse...

Rita, Guilhim, obrigada por perceberem! É que anda a pôr-me fora de mim as pessoas não verem a loucura que é para as crianças, para os bebés!, terem estes horários. Eu sei qud há pressão social, financeira, dos chefes e patrões, para manter o status quo, mas mesmo que não conseguissem mudar, ao menos que compreendessem que está errado... O peixinho sai às 16h, entra às 9h, tem ginástica, inglês e música 2x/semana, chega e até sobra!

Fuschia disse...

Sinceramente, às vezes até acho que é melhor os pais não terem bem noção, para não sofrerem com aquilo que é tão difícil mudar. Os meus pais eram iguais, estavam muitas horas fora, mas felizmente tive sempre os avós por perto e lembro-me bem do fim da tarde e dia já ser na casa deles, em família.
Eu tenho redução de horário quanto tiver filhos (função publica) e estaria disponível inclusive para receber menos e ter a mesma redução de horas, mas infelizmente muitos agregados em portugal não se podem dar ao luxo de reduzir o seu rendimento mensal. Acho que às vezes normalizar as coisas é uma forma de não sofrer com elas.

Goldfish disse...

Eu também penso que esta é uma forma de os pais se protegerem, achando que está bem assim. O meu problema é que não está bem e, enquanto assim pensarem, não vão lutar para mudar nada...

Clau disse...

Li há relativamente pouco tempo um texto (Capazes) sobre os horários e presenças masculinas e femininas nos colégios e escolas dos filhos. Uma vergonha a forma como estes locais (que afinal são onde deixamos os miúdos!!) gerem os horários e as presenças de familiares - aliás, marcarem reuniões às 15.00 parece ser realmente adequado a quem tem profissões das 09.00 às 18.30 (quando não até mais tarde....). E os horários de encerramento das instalações são para cumprir. Há trânsito? Venha a voar.... Pai que é pai tem essa "obrigação", no matter what. O resto é visto como desleixo parental.

Goldfish disse...

Também o li e pensei em escrever sobre isso, não deu e agora já vai tarde. É fácil cair no preconceito, de ambos os lados da barricada. Esse texto caiu no preconceito de que a escola, quando pede alguma coisa, está a querer algo muito extraordinário. eu tenho o preconceito contrário: para mim decidir ter filhos é muito sério e vem com um monte de obrigações - entre elas, ir a certos eventos nas escolas (ainda que perceba que não dá para ir a todos). Deixa-me partilhar um caso da minha vida que alicerçou este preconceito: certo ano lectivo fui todas as semanas à 4ª das 18h às 19h30 dar explicações a 3 miúdos, 2 da 2ª classe e um com 4 aninhos; são 9 meses, todas as semanas, ao fim do dia. Vi o pai das crianças 2 vezes, uma delas no hall, cruzámo-nos no elevador; a mãe nunca conheci. Para mim, deixar filhos desta idade com alguém que nunca nem sequer vimos é desleixo, e saber (pelo que contou a empregada) que não era só à 4ª que as crianças jantavam apenas com a empregada e que era ela a deitá-las, sem verem os pais, enche-me de tristeza por aqueles meninos.

Clau disse...

Mas isso são casos um pouco diferentes. No caso do artigo eu acho que me revi - até porque o comentei no facebook e a Rita Marrafa também me respondeu. Existem, sem dúvida, profissões que te impossibilitam de estares a determinadas horas em determinado local. Os meus pais eram jornalistas. Eu sempre vivi com a minha mãe (fatalidades do destino não permitiram convívio com o meu pai), mas era impossível era estar presente em tudo. Os tempos também eram outros. A reportagem em si refere um caso realmente específico e misógino. O que mencionas é realmente todo um outro padrão comportamental parental. Está relacionado com o outro comentário que deixei há pouco acima. Sobre a educação das crianças. Não acredito que os pais (todos!) não pensem a sério nas escolhas que têm de fazer. Mas acredito que a maioria - nomeadamente, e estranhamente, os que têm mais possibilidades financeiras, sejam os primeiros a marimbarem-se para o tempo que passam com os filhos. E sim, é de fazer impressão quem passa 10 horas do dia sem estar "ESTAR" com os filhos.

Goldfish disse...

Eu sei que há casos de profissões especialmente difíceis no que a horários diz respeito, mas quero acreditar (quero, mesmo, mesmo!) que naquela escola há tantos pais que nunca vão, nem no dia do pai, nem na festa de Natal, nem de fim de ano, nem a reuniões que tentaram "obrigar" os pais a uma presença (e este é um problema que se verifica mais nos pais do que nas mães). E os miúdos sentem tanto, tanto.