sábado, 16 de outubro de 2010

100 kms depois por estradas de Portugal

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Daqui a largas centenas (milhares!) de anos, quando uma equipa de arqueólogos do futuro começar a desenterrar o que resta da nossa civilização, vão teorizar que somos um povo extremamente religioso. Está patente esta religiosidade na existência de numerosos edifícios religiosos espalhados por um território tão pouco povoado. No local mais distante do que identificam como uma habitação, lá está, mais um edifício religioso, por vezes quanto mais afastado de um centro populacional, maior em dimensão. Presumem, estes Indiana Jones do futuro, que as peregrinações deviam ser imensas, o que talvez explique o também excessivo número de viaturas de quatro rodas. Outra certeza será que adoramos o antigo Deus-Sol, cuja forma circular adoptamos para os nossos locais de culto, que decoramos com as mais variadíssimas formas de plantas e ornamentamos com estátuas gigantescas (cuja ligação ao Deus-Sol está ainda por determinar).
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Um provérbio aquariano também inspirado neste Sábado: "Todos os caminhos vão dar a uma rotunda".
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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Da minha janela da cozinha

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É em boa hora que um barulhinho metálico, tic-tic-tic, me tira os olhos do estendal e os leva até à rua. Dois gatos silvestres esperam, um empoleirado em telhado de zinco frio pela ausência de sol, outro, mais corajoso ou estúpido, o tempo o dirá, ao pé de uma velhota que mora em frente. Dos sacos das compras pousados ao lado tirou duas latas de comida para gato, um certo peso na reforma que por certo tem, para alimentar estas alminhas que a esperam. Estica-se, do alto do seu metro e meio, para colocar um pratinho no dito telhado, e depois baixa-se para pousar no chão o que será (do meu primeiro andar não vejo com clareza) uma porção idêntica do mesmo alimento, carinhosamente partido em pedacinhos com uma faca, o tic-tic-tic ritmado que me chamou inicialmente a atenção. Por de trás do telhado de zinco, outro vizinho cava um quadrado de terreno com uma enxada, com um tchuc-tchuc que os meus ouvidos, alertados pelo tic-tic-tic menos forte mas mais penetrante da faca no pratinho de comida de gato, ouvem de repente. Já há um quadradado com couves de tamanho médio e outro com couves mais pequenas, ainda um quarto em pousio e uma tira com umas ervinhas que serão, com certeza, salsa e coentros. Olhando a terra acabada de lavrar, endireita-se o senhor, carregando com as mãos nos rins enquanto se estica para que músculos e tendões lhe permitam voltar à posição erecta. Enquanto olho para a vizinha que recolhe os pratos da sua caridade para com os felinos e penso que a senhora até os leva para casa para os lavar, vai-se o lavrador, e a vida continua em Lisboa. Reconcilio-me com a minha cidade e com a vida em momentos destes, apesar de depois voltar para o estendal por recolher e para a máquina por estender.
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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Não é que eu não soubesse

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escusava é de ter sido tão óbvio... Em 14 meses de Amesterdão ouvi milhentos "Oooh", centenas de "Wat schat hondje!", "kijk, hondje" e "wat leuk hondje!"*, sempre num tom terno a condizer com o diminutivo carinhoso "je", que os holandeses aplicam a tudo quanto gostam. Também houve um par de idiotas que ficou muito divertido quando a Luna se assustou com o barulho dos pés a bater. E ainda as muçulmanas que, muito bem a passear por qualquer lado, olhavam de repente para a Luna soltavam um ou dois guinchos e fugiam a correr**. Enfim. Mas por cá, e em duas semanas mal contadas, já tive um puto e um pai com a filhota dos seus 5 anos pela mão a ladrar à Luna (perceberam bem, foi o pai quem ladrou) e já ouvi uns quantos "o cão". Até o "schat" (lê-se srrat) já me soa bem.
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* não sei se estão bem escritos, significam "que cãozinho tão querido!", "olha, um cãozinho" e "que cãozinho tão fixe!";
** eu e o mariducho costumávamos achar que viam o avô pastor alemão em vez da nossa rafeirinha até nos explicarem que muitos muçulmanos acreditam que os cães são animais impuros.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Fora d'água, sem dúvida

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E agora quem tira a amesterdammer que se instalou e criou raízes em mim?

Do alto da minha colina olho em redor e sei que não vou a lado nenhum de bicla e não é por terem conseguido rebentar-me o pneu da frente na mudança ou por no meu prédio (coisa estranha) não haver bomba de encher pneus comunal. Saio de casa e a pobre cachorra tem de se contentar com andar às voltas por 3 prédios, ou arrisca-se a ter de me carregar às costas para voltarmos para casa. O calcanhar direito queixa-se enquanto não volta a ganhar o calo de conduzir todos os dias. Tenho de re-aprender a fazer a lista de compras, de modo a que as mesmas me durem, no mínimo, 3 semanas. Morar em Lisboa, Lisboa, não é o mesmo que morar em Amesterdão, Amesterdão - tudo está longe e não há forma eficiente de lá chegar sem ser de carro. E a diferença que há em ganhar malzito na Holanda e ganhar mal em Portugal?!? Em compensação, hoje já há jantar combinado com a prima do coração. Noves fora os almoços e lanches do fim-de-semana e feriado. Ah, pois é, e foi feriado, coisa que lá nos Países Baixos só lá para o Natal... É que enquanto em Amesterdão também ninguém tirou a lisboeta que há mim!
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terça-feira, 5 de outubro de 2010

Buli

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As tralhas multiplicaram-se por geração espontânea. Além disso, desconfio que a casa encolheu. Quando conseguir encaixar quase tudo (acho que tudo, tudo, não há maneira), volto ao aquário em força. Por enquanto, as dores nas costas mal me deixam mexer e amanhã tenho uma turma de 18 (!) putos dos 3 aos 5 anos à minha espera para lhes meter um pouco de anglicismo na cabeça logo pela manhã. Wish me luck!
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domingo, 3 de outubro de 2010

Comi

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Mais uns dias destes e rebolo. Só mais uns dias.
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P.S. - sendo que os que me confeririam bronzeado fora de época já se foram. Ex-companheiros amsterdammers alegrem-se, cá também já chove.

sábado, 2 de outubro de 2010

Cheguei

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Mais uns dias destes e já tenho bronzeado de camionista. Só mais uns dias.
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P.S. - Não sei onde vou enfiar toda a tralha que ainda há-de chegar de Amesterdão. Acho que preciso de móveis novos. E, sendo assim, de uma casa nova, onde caibam novos móveis. Ai, ai.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

So long, farewell, auf wiedersehen, goodbye!

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Este deixou de ser o meu prédio, a minha porta, a minha casa. Fui feliz, aqui. Até à vista, Amesterdão.
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sábado, 25 de setembro de 2010

5 days to go

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Tem chovido, o trabalho tem sido uma seca, as mudanças são uma canseira nunca imaginada - as coisas multiplicaram-se por geração espontânea lá em casa, é a única explicação - e já me despedi dos meus cantinhos de Amesterdão. Agora, só faltam as pessoas. E, só em 5 meses de emprego, já há tantas de quem vou ter saudades. Goodbye season starts tomorrow.
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domingo, 19 de setembro de 2010

Blackout

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A partir de amanhã, não tenho internet em casa. Aliás, não tenho net, TV cabo nem telefone fixo (o que, tudo junto, acaba por ser assim para o chato). O primeiro sinal de que nos vamos embora, mesmo. A minha disposição? Tem dias. Há os dias "vou para casa, yupiii!", os "continuo sem emprego à vista, aargh!" e os "nova etapa, venha ela!". Há quem lhe chame esquizofrenia, eu prefiro achar que é só esforço de adaptação, felicidade natural, medo da mudança e noção da realidade, tudo muito bem misturado. Bem, o resultado é que vou desaparecer dos chats, nos próximos dias. Fica o aviso, a quem interessar.
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sábado, 18 de setembro de 2010

Cada um sabe de si

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Um dia destes vou lá ver se cumprem o horário à risca. É que se forem só 18h, por exemplo, eu quero ser atendida, afinal ainda tenho 60 segundos para escolher e pagar - o que não é difícil, só há uma coisa que compro nesta loja.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Luna em patins

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Lembrei-me de experimentar ir passear a Luna de patins. Já há uns bons meses que não os tirava da mala e, o que dizer?, deu-me para aí. Foi um sucesso. Não tem medo dos patins (ao contrário da bicicleta), não puxou, não tentou parar para (mais uma) mijinha e, o mais importante de tudo, não tentou suicidar-se para debaixo das rodas. Outra coisa boa é que é algo que também posso fazer com ela em Portugal, apesar de ter de me deslocar até aos locais onde posso pôr os patins de carro e de desconfiar que lá vamos chamar um bocadinho mais a atenção (aqui somos só mais duas).
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10:30 - 13:00

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Foi uma boa escolha, até apanhei um bocadinho de sol. Daqui a 10, 15 min. vai começar a desabar outra vez. Apanhei também um holandês que achou por bem meter-se comigo. Muito educado e com um sorriso nos lábios, rosnou-me em holandês que "Quem lhe dera ser o cão para eu o passear" (eu só sei porque 2 segundos depois e perante o meu sorriso amarelo de pura incompreensão repetiu-o em inglês). Senhores, não se metam comigo. Se forem "abusados" recebem uma resposta torta ou um olhar matador, mas se forem bem-educadinhos e/ou originais eu nunca sei o que responder e, naturalmente, só me saem asneiras. A este respondi-lhe "but the dog is much cutter...", novo sorriso amarelo-esverdeado conforme me apercebi do que disse, e ala que se faz tarde enquanto o holandês, que levou tudo na brincadeira, se ria a bom rir e me agradecia o elogio. O único holandês que se mete com raparigas no meio da rua tinha de se cruzar comigo.
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Agora digam-me lá

Exactamente a que horas é que acham que saia à rua com a Luna de modo a não voltarmos as duas encharcadas até aos ossos?
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É que o "few showers" deles é relativo.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Há quem fale do fantástico Sol de Lisboa. E a Lua?

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Foto tirada do meio do Tejo num dia de Agosto. A lua, desta exacta cor, subia pelo céu, ligeiramente escondida atrás do tabuleiro da Ponte 25 de Abril. Lindo.
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Ananas- aardbei, podem não acreditar mas que los hay, hay

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Não é que eu não soubesse que isto não ia saber a nada, mas uma pessoa dá com morangos-ananás no supermercado e decide que não pode deixar este país sem os provar. É como não provar o croquetten, as batatas fritas com maionese ou stroopwaffels. E, tal como nos exemplos anteriores, mais valia ter poupado o dinheiro, que entre umas e outras coisas já dava para comprar umas bijuterias na Parfois*.
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* gostaram do toque "blogue de gaja"? Foi propositado, não se iludam.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Das coisas simples

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Eu tinha uma garrafa de água no emprego, de tampa cor-de-rosa, que era, para mim, igual a todas as outras garrafas. Esta garrafa desapareceu misteriosamente da minha secretária durante as férias em Portugal - quem sabe outra pessoa com baixo padrão de higiene apaixonou-se pela tampa cor-de-rosa e levou-a. Ontem, lembrei-me finalmente de levar outra garrafa para ter água na secretária e foi aí que me dei conta de quão especial era a minha garrafinha de tampa cor-de-rosa. E não, não é pela cor da tampa. Demoro quase um minuto a abrir a garrafa nova, de tanta volta que o raio da tampa azul-escura tem de dar, e não tenho tempo para dar um golinho entre chamadas. Quase morro de sede. É preciso uma tragédia acontecer para uma pessoa dar valor às coisas.
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terça-feira, 14 de setembro de 2010

Dinner, A'dam time

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Já não chegavam os almoços às 11h45, hoje inaugurei o jantar às 18h. Desconfio que mais logo há ceia.
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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O Irónico Ortográfico

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Começo a crer que nunca me vou entender com o Acordo Ortográfico. De tanto falar com o lado de lá do Oceano acabei por me aperceber que existe uma palavra que, ironia das ironias, se vai manter na escrita antiga em Português do Brasil e alterar na de Portugal: recepção. Sendo que o pessoal do lado de lá lê o "p", ele mantém-se. Como na nossa pronúncia o "p" é mudo, deixa de se escrever. Não posso deixar de considerar isto irónico!
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domingo, 12 de setembro de 2010

Gazzele vs Porsche

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E vinha eu lançada do emprego para casa na minha veloz Gazzele de 3 velocidades (que eu não tenho pachorra para usar e que por isso estão sempre na 2ª) quando me deparo com um belo Porsche a impedir-me o caminho. Bem educada nas lides de bicicletar em Amesterdão, enfiei-me pelo passeio e por lá continuei à espera de ver uma sombra negra vagamente parecida com um Porsche passar por mim. Não passou, e eu a olhar para trás. A Porscheta quase parava a cada lomba, para não arranhar os saiotes... Ou seja, fiz um quarteirão inteiro sem ela me apanhar. Oh, yeah!, ultrapassei uma Porscheta de Gazzele!
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